Indexações no FamilySearch: como lidar com erros de diversas naturezas

Quando falamos do FamilySearch é sempre importante começar agradecendo a essa maravilhosa instituição por tudo que nos proporciona, sejamos amantes da genealogia ou não. A obra do FamilySearch não tem comparação com qualquer outra instituição na área da genealogia e qualquer elogio é necessariamente subdimensionado. Tenho o mais absoluto respeito e admiração pelo FamilySearch e por sua mantenedora, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, conhecida como “Igreja Mórmon”.

Esta é e sempre será uma premissa quando eu preciso apontar erros no FamilySearch, porque já vi muita gente me interpretando de maneira equivocada e outras que consideram que o FamilySearch é infalível. Qualquer obra humana da dimensão do FamilySearch está sujeita a erros, muitos erros. Todavia, os acertos excedem abundantemente os erros. O fato é que os erros existem e como um “especialista” e “influencer” (será?) nessa área, eu necessito abordar esses problemas.

Explicando rapidamente, a indexação é o processo pelo qual informações contidas num registro – que se apresenta como uma imagem digital – são selecionadas para que determinado registro possa ser encontrado de maneira infinitamente mais fácil usando os dados essenciais. Então, se eu tenho um registro de nascimento, a indexação vai extrair os dados essenciais daquele documento: nome, sobrenome, local e data de nascimento, nomes dos pais. Às vezes os nomes dos avós, o número do registro, entre outros dados que já não são essenciais. O mesmo ocorre com outros tipos de registro. Poderíamos resumir da seguinte forma:

  • Registro de nascimento: nomes e sobrenomes do registrado, local e data de nascimento, nomes e sobrenomes dos pais.
  • Registro de casamento: data da celebração do casamento, nomes e sobrenomes dos noivos, naturalidades e idades dos noivos, nomes e sobrenomes dos pais dos noivos.
  • Registro de óbito: data do óbito, nomes e sobrenomes do falecido, naturalidade e idade do falecido, nomes e sobrenomes dos pais do falecido.
  • Censos: nomes, sobrenomes, idades, local de nascimento e outros dados dos membros que compõem a família, local de residência.
  • Registros de identificação de estrangeiros: nomes e sobrenomes do estrangeiro e de seus pais, nacionalidade, local de nascimento, idade ou data de nascimento, data da imigração.

Obviamente, a quantidade e o tipo das informações varia bastante no tempo e no espaço, ou seja, dependendo do período do registro e do local onde foi feito. Para citar um exemplo, no Brasil os registros de nascimento trazem os nomes dos avós, enquanto que na maioria dos países isso não acontece. Outro exemplo: nos registros de óbito na Itália não é declarada a causa da morte (o atestado de óbito – o verdadeiro, emitido pela autoridade médica – que traz a causa mortis fica arquivado).

Os projetos de indexação do FamilySearch são um esforço de colaboração coletiva (crowdsourcing) para tornar a busca de registros acessível até mesmo a pessoas leigas, ou seja, que não têm treinamento para pesquisas genealógicas. Basta digitar alguns dados que o registro, se estiver indexado, virá à tona nos resultados de pesquisa. A ideia é indexar a maior quantidade de registros possível e isso irremediavelmente acaba afetando a qualidade da indexação. Muitos indexadores não têm nenhum treinamento em paleografia (interpretação da caligrafia de textos manuscritos), tem baixo repertório enciclopédico (cultura geral, leitura, experiência de vida etc.) e, em alguns casos, não dominam o mínimo da língua veicular do registro que estão indexando. Essa baixa qualidade se traduz em indexações erradas, sobretudo quando a escrita dos registros é de difícil compreensão ou os nomes são de uma língua estrangeira, mas problemas acontecem até mesmo em nomes da língua portuguesa.

Aqui está um caso extremo que sempre gosto de dar como exemplo: https://www.familysearch.org/ark:/61903/1:1:QV39-F4PK. Trata-se de um casamento ocorrido em 14 de maio de 1912 no Rio de Janeiro. Na tabela a seguir estão os nomes como foram indexados à esquerda e como realmente são à direita:

Como foi indexado Nome real
Noivo Conaso Schipps Donato Felippe
Pai do noivo Lawrence Schipps Lourenço Felippe
Mãe do noivo Maria De Concervad Maria da Conceição
Noiva Bonnagas De Costa Brittes Domingas da Costa Brittes
Pai da noiva Matieral De Brittes Francisco da Costa Brittes
Mãe da noiva Michiel Fisonca Guilhia Arsenia

 

Este exemplo traz um registro de uma maior dificuldade, todavia a indexação executada (e aprovada por um conferente) demonstra que não foram aplicadas as regras básicas da paleografia e também deixa claro que o indexador tem baixo repertório enciclopédico (ou não o utilizou devidamente), pois recorreu a nomes absurdos para a realidade do Brasil (Conaso Schipps, Maria da Concervad, Bonnagas, Matieral, Fisonca).

Uma indexação como essa, praticamente impossibilita a pesquisa, pois todos os nomes foram indexados de forma radicalmente incorreta. Para nosso alento, a maioria dos erros em indexação são mais leves e ocorrem apenas em um ou dois dados do registro, obstáculo que pode ser superado fazendo uma boa pesquisa, cruzando dados e fazendo várias tentativas.

Os erros de indexação também podem envolver a localidade e a tipologia documental

Na indexação, há também erros que não foram feitos pelos indexadores, ou seja, os colaboradores anônimos do projeto. Alguns erros foram feitos por técnicos do próprio FamilySearch e aqui vou citar dois tipos:

Erros de localidade

O sistema da indexação atribui erroneamente um fundo (uma coleção de livros de registro) a um determinado local que não é onde os registros foram de fato lavrados. Cito três exemplos:

  1. Registros do município de Mococa (São Paulo) foram indexados e atribuídos pelo programadores ao distrito da Mooca (município de São Paulo, capital)
  2. Registros do distrito de Itaquerê (município de Araraquara, São Paulo) foram indexados e atribuídos pelo programadores ao distrito de Itaquera (município de São Paulo, capital)
  3. Registros de paróquia de Avellaneda (província de Buenos Aires, Argentina) foram indexados e atribuídos pelo programadores como se fossem do município de Avellaneda (província de Santiago del Estero, Argentina)

Em todos os três casos fica claro que os programadores foram afobados e não tiveram a devida atenção de leitura para diferenciar uma localidade da outra. Por isso é importante que nós, como pesquisadores, prestemos atenção e ao utilizar esses registros façamos as necessárias correções.

Erros de tipologia documental

Este erro tem uma gravidade menor que os anteriores, mas pode causar erros sérios de interpretação dos dados e atrapalhar uma pesquisa genealógica. Um que faz parte da nossa realidade é aquele dos “””””cartões de imigração”””””, que coloco com cinco aspas antes e depois porque tenho calafrios toda vez que vejo. Não consigo entender por qual motivo a equipe do FamilySearch resolveu inventar um nome completamente equivocado ao digitalizar dois fundos de tipologias documentais totalmente diferentes, cuja característica em comum é somente ter como objeto estrangeiros que residiram ou estiveram um período no Brasil.

No FamilySearch há três tipos de “cartões de imigração” (sic):

1) Fundo de fichas remissivas de prontuários de registro de estrangeiro produzidas pela Secretaria de Segurança Pública do estado de São Paulo para organizar os prontuários de registro de estrangeiro criados pelo Decreto-Lei nº. 406 de 4 de maio de 1938. Este fundo (coleção) diz respeito a estrangeiros menores de 60 anos residentes na cidade de São Paulo ou municípios da região metropolitana (mesmo que apenas por um breve período). Esse registro e por consequência as fichas (erroneamente denominadas “cartões de imigração”) nada tem a ver com o momento da imigração. A imensa maioria dos estrangeiros fichados haviam chegado ao Brasil décadas antes. A esmagadora maioria dos anos ali apontados como “ano da imigração” na verdade são os anos em que as fichas foram produzidas, a maioria entre 1940-1945, que foi o período do grande esforço para o registro de todos os estrangeiros residentes no Brasil, que antes da lei já citada não tinham nenhum documento que atestasse sua permanência legal em território nacional. O título desta coleção (fundo) deveria ser algo como “fichas remissivas de registros de estrangeiro” ou “fichas de registro de estrangeiro”.

2) Fundo de fichas remissivas de prontuários de registro de estrangeiro produzidas pela Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, que à época equivalente ao município do Rio de Janeiro. Valem as mesmas considerações do item 1 acima.

3) Fundo das fichas consulares de qualificação produzidos pelos consulados do Brasil no exterior para a emissão de vistos de ingresso no país. Este fundo (coleção) registra também estrangeiros que vieram ao Brasil por motivo de turismo a partir da década de 1940, mas também os imigrantes da leva que chegou sobretudo após o fim da Segunda Guerra Mundial. O FamilySearch erroneamente atribui todas essas fichas (também erroneamente denominadas “cartões de imigração”) ao “Rio de Janeiro”, como se todos tivessem chegado pela cidade do Rio de Janeiro, o que é absolutamente equivocado, pois a grande maioria se dirigiu a São Paulo e uma outra grande parte para várias outras partes do país. O erro deve-se ao fato de todas essas fichas estarem arquivadas, como é natural, tendo em vista que se trata de documentação da União, no Arquivo Nacional no Rio de Janeiro. O título desta coleção (fundo) deveria ser algo como “fichas consulares para emissão de visto”.

Conclusão

O trabalho do FamilySearch é incrivelmente fantástico, mas é importante que o pesquisador tenha a capacidade de analisar com calma e atenção para interpretar diretamente o registro original. A indexação é apenas um veículo para que os registros cheguem mais facilmente para a nossa análise. Nada substitui o exame minucioso que o pesquisador deve fazer! Os dados provenientes da indexação não são de maneira alguma definitivos e nem têm qualquer caráter de “oficialidade”!

Gostou? Deixe seu comentário: